domingo, maio 13, 2012

A origem do Okinawa-te?


de Patrick McCarthy    tradução de Marcos Piolla




Boxe Siamês: A origem do Okinawa-te (Ti'gwa / 手小)?

Sem nenhuma documentação oficial, testemunhos históricos confiáveis ou evidências conclusivas que expliquem as origens precisas e a evolução das artes de combate okinawenses, muito da sua história é baseada em referências anedóticas não comprovadas e tidas como fato. Tendo questionado vários aspectos dessa história diversa (Bubishi, Koryu Uchinadi Vol #1 & #2, My Art of Karate, and Tanpenshu, etc.) esta apresentação representa a combinação de minhas conclusões pessoais e experiência empírica, que espero, possa desafiar algumas crenças aceitas hoje.


Com a excessão da história do comercio com o sudeste da Ásia, poucos testemunhos informais de visitantes estrangeiros durante o período final do antigo reino Ryukyu de Okinawa e uma breve menção no livro de George Kerr (Okinawa, Um Povo Ilhéu; "... boxe (Karate) em que os pés e mãos são usados que veio da Indo-China ou Sião.” p217) não há quase nenhum registro publicado disponível sobre a relação entre Te () Ti / Di, Ti’gwa / 手小 e / ou Okinawa-te / 沖縄手) e o Boxe Siamês.



* Entusiastas do Karate devem notar que o Camboja, Laos, Sião e Vietnam foram, em vários níveis, influenciados historicamente pelas culturas de China e India, antes do tempo da colonização ocidental, portanto, o nome Indo-China.

* A lingua de Ryukyu (Uchinaguchi) é caracterizada pela existência tanto de prefixos como de sufixos para os diminutivos, ou seja, com objetivo de ou resultado de familiaridade e afeição; mas também para denotar trivialidade ou pequenice. O prefixo é “guma” e o sufixo, “gwa”. Ambos, guma e gwa, servem para criar palavras no diminutivo quando associadas à uma palavra base. Porém, no caso de antigas práticas como kata  e Ti, o sufixo “gwa” era comumente usado para indicar familiaridade e afeição, ao invés de trivialidade e insignificância.

Estou inclinado a concordar com a observação de Kerr e acreditar que Ti’gwa / 手小 — definido como a parte de impacto do Karate — nos chegou através do antigo estilo de Boxe Siamês (também conhecido como Muay Boran) e não do kung fu (Quanfa / 拳法) a arte de combate que eu previamente identifiquei como a fonte de onde veio o kata / 型.



Da paixão para a vocação

Entre o final dos anos 1970 e o começo dos 1980, passei um tempo considerável lendo tudo que pude encontrar sobre a história das artes marciais de Okinawa. Fiquei fascinado ao descobrir que muito das chamadas “nativas” formas de luta de lá eram, na verdade, uma mistura vinda de culturas adjacentes (China, Japão, sudeste asiático...). Naturalmente, a vontade de melhor conhecer essa história diversa me levou a vasculhar as formas de combate e culturas das vizinhanças.


Durante essa pesquisa ficou evidente que faltava muito na história das artes marciais de Okinawa... informações perdidas nas areias do tempo, se é que foram, um dia, registradas! O notório historiador e mestre de Karate de Okinawa Kinjo Hiroshi de noventa e dois anos, me explicou que, “a dispeito da importância que colocamos no estudo das orígens, história e linhagens dessa arte hoje em dia, esse não era o caso durante o período do antigo reino Ryukyu.” De fato, de acordo com Kinjo, e apesar das referências anedóticas a “uma ligação com (Fujian) a China,” nunca houve uma explicação definitiva sobre a história das artes de combate sem armas de Okinawa!

Ao raiar do século XX as autoridades okinawenses decidiram tirar da obscuridade suas artes secretas de combate e introduzir ao domínio público (ainda que com segundas intenções) versões modificadas dos kata como forma de exercício físico para servir, aparentemente, às escolas infantis. Com a necessidade de preencher os vazios históricos e nenhuma fonte oficial que pudesse corroborar informação, os entusiastas locais apresentaram, com certa “liberdade”, as referências anedóticas para descrever suas orígens: “O Karate tem suas orígens na China!

Da vocação para a profissão

Quando jovem, fiquei tão obcecado pelas artes marciais que tudo o que eu poderia sonhar era devotar minha vida à sua prática e, um dia, viajar para os seus locais de orígem para viver e estudar. Comecei a viver meu sonho em 1974 quando iniciei minha carreira como instrutor profissional. Então, em meados de 1980, consegui realizar a segunda parte do meu sonho quando migrei para “a terra do sol nascente”. Que melhor lugar para começar a seguir as pegadas dos pioneiros que desenvolveram essas artes do que no seu berço?

Diferenças culturais

Com ampla oportunidade de conhecer e praticar com tantas autoridades okinawenses eu fiz bom uso das ocasiões e recebi importantes vislumbres da arte pela qual sou tão apaixonado. Mais interessante, entretanto, foi a quantidade incomum de atitudes amigáveis e acolhedoras que encontrei em toda a parte aqui em Okinawa e também, através do Japão.

Todos conhecemos “pessoas legais” aqui e ali na nossa jornada pela vida mas encontrar toda uma cultura de gente tão amigável foi, real e inquestionavelmente, uma experiência de profundo questionamento que alterou minha vida. De fato, esse traço cultural singular me ajudou a remover qualquer ameaças à minhas inseguranças pessoais e me permitiu aproveitar a vida de uma forma que nunca tinha experimentado no ocidente. Apesar de ter levado algum tempo para “sacar” esse fenômeno social incrivelmente amigável, eu consegui, finalmente, entender que esse fenômeno é o que os Japoneses chamam de “Tatemae”.

*Tatemae / 建前 literalmente “fachada”, o comportamento que exibimos em público. Tatemae é o que a sociedade japonesa espera e exige de acordo com as posições de cada um e as circunstâncias.

*Honne / 本音 é o oposto de Tatemae e representa os “verdadeiros sentimentos” e desejos de uma pessoa. Por serem opostos ao que manda a sociedade, são escondidos de todos, co excessão dos melhores amigos.

Ocidente versus Oriente

Questionar toda e qualquer coisa que não compreendemos é uma prática largamente aceita aqui no ocidente. Na verdade, o pensamento crítico é a ferramenta mais aceita para resolver problemas em negócios, educação, esportes e na vida em geral. Uma ótica tão “mente-aberta” como essa, entretanto, não é a prática aceita na cultura japonesa e, em nenhum lugar essa forma de pensar se reflete mais do que nas suas instituições tradicionais de ensino, governo, finanças, forças armadas e mantenedoras da lei, esportes e outras atividades culturais tradicionais como o Budo!

Sabendo o que sei hoje sobre o Japão e sua homogeneidade, machismo e cultura discriminatória de conformidade, estou apto para entender como e porque tais comportamentos são tão abrangentes e aceitos. Admito que o prevalecimento da inflexibilidade , a ingenuidade cultural e a falta de inqisição genuína me veio, inicialmente, como uma surpresa. Isso me fez, entretanto, finalmente entender porque essas referências anedóticas puderam permanecer sem questionamentos e porque muitas delas sobreviveram intactas.

Mito, a fonte da desinformação em conjunto com a ausência de pensamento crítico e o protecionismo político serviram para obscurecer ainda mais a história eclética das artes marciais de Okinawa.

O Somatório das partes

Ao observar mais de perto a arte do Karate, comecei a identificar vários métodos diferentes dentro de uma única tradição. Isso me fez crer que o Karate representa a herança de várias artes combativas. A mais óbvia é o impacto, sua ferramenta funadmetal, mas atrevés do estudo meticuloso dos kata, ficou evidente que as práticas aplicadas excediam de longe o impacto percursivo e chegavam ao grappling, imobilizações e submissão!

Comparando essas práticas individuais com artes de combate similares, e ainda mais antigas, de culturas adjacentes, fui capaz de chegar a interessantes deduções. Apesar da ambiguidade que paira sobre a conturbada fusão dessas artes agrupadas sob o nome Karate-Do (空手道 est. 1933), identifiquei não menos que quatro disciplinas distintas. Acredito que essas artes de combate desarmadas representam a verdadeira fonte da qual o Karate teve suas orígens.

Tegumi (手組) era originalmente uma forma de luta-livre datando do período Tametomo (séc. XI - Japão). Acredita-se que essa disciplina foi derivada da luta-livre chinesa (Jiao Li  /  角力) da qual vem o Shuai Jiao ( 摔角 - novo nome est. 1928) e evoluiu para uma forma singular de wrestling antes de se tornar um esporte regrado chamado de Sumo de Okunawa / Ryukyu.

Torite (Chin Na / Qinna / 擒拿 em chinês Mandarin) é o método derivado do Shaolin de segurar e conter um oponente, vigorosamente adotado por oficiais da lei, agentes de segurança e agentes carcerários durante o período do velho reino Ryukyu. A reconstituição solo dessa prática pode ser encontrada nos kata.

Kata (Hsing / Xing / em chinês Mandarin), apesar de cultivada localmente durante o período Riukyu de Okinawa (ver minha teoria Kumemura), essa prática solo de rotinas de luta tem sua orígem na China (Fujian) e nos quanfa chineses (kenpo / 拳法) como o Yongchun Crane Boxing, Monk Fist and Southern Praying Mantis e outras escolas. Usados como formas de exercício e meios de treinamento pessoal, foram popularizados na China com o intuito de promover a boa forma, condicionamento mental e o bem-estar.

Ti'gwa (手小) era a forma okinawense de impacto percursivo (atemi), tmabém chamado de "Te," “Ti,” "Di" ( significa mão/s) ou Okinawa-te e Uchinadi. Era uma arte baseada principalmente no uso dos punhos cerrados para golpear um oponente (em contraste com as mãos abertas preferidas pelas artes chinesas de acordo com ambos, Kyan Chotoku e Miyagi Chojun ), mas a cabeça, os pés, queixos, cotovelos e joelhos eram também favorecidos.

Apesar do foco óbvio em golpear, na arte de combate e no condicionamento físico, Ti’gwa também tinha ênfase considerável no aspecto de desenvolvimento do caráter, como exemplificado no conselho deixado pelo homem público Tei Junsoku (程順則):

“Não importa o quanto você possa evoluir na arte do Te, nem nas suas realizações intelectuais, nada é mais importante do que o comportamento e humanidade que demonstra no dia-a-dia.”

Tei Junsoku (1663-1734) foi um pensador confucionista e oficial do governo do reino Ryukyu. Foi descrito como “um ministro da educação não oficial” e é particularmente famoso pelas suas contribuições ne educação e em bolsas de estudo em Okinawa e no Japão.

Indo-China

Satisfeito por ter localizado com sucesso as orígens de Tegumi, Torite, e kata, meus esforços em traçar as orígens do Ti’gwa mostraram-se um desafio bem maior.

Exaurindo minhas fontes chinesas, koreanas e japonesas, e considerando a possibilidade dessa arte plebéia ter se desenvolvido indigenamente, lembrei-me dos comentários de Kerr e fiquei agradavelmente surpreso ao saber que por mais de mil anos, tanto China quanto Índia tiveram grande influência nas artes de combate locais no sudeste da Ásia.

À partir daí, ampliei o escopo do meu estudo e, apesar das tantas tradições memoráveis que encontrei na Indonésia, Malásia, Filipinas e etc..., nenhuma mostrou semelhança com a simplicidade do Ti’gwa. A única cultura em que pude encontrar uma tradição de qualidades similares, com proximidade geográfica razoável e períodos históricos sincronizados, foi o antigo reino do Sião e seu boxe arcaico, Muay Boran.

Se tem penas, voa e faz Quack!..... é um Pato!!

Aprendi que Muay Boran (lit. boxe arcaico), usando as mesmas ferramentas do Ti’gwa (punhos fechados, cabeça, queixos, pés, cotovelos e joelhos) foi muito popular na Tailândia durante o período do antigo reino do Sião. Aumentando a plausibilidade dessa teoria, também descobri que os navios Ryukyu infestaram as águas entre as duas culturas, viabilizando o comércio por mais de duzentos anos durante o período Ryukyu!

Enquanto tudo isso era bastante promissor, até o momento não tinha conseguido ver a ligação entre Muay Boran e o Ti’gwa.

À primeira impressão, as diferenças parecem óbvias, afinal, todos sabem que o reino do Sião virou a Tailândia e o Muay Boran tornou-se o Muay Thai (Boxe Tailandês).

Muay Thai,  em sua forma moderna, não se parece nada como esporte Karate e vice-versa! Por mais que eu tentasse, ainda tinha dificuldade em reconciliar a simplicidade precisa do kumite e a elegância dinâmica dos kata com o esporte moderno Muay Thay! Talvez estivesse me focando demasiadamente em lutadores de Thai Boxe vestindo calções de seda, usando luvas, untados de um linimento analgésico de degladiando no ring com joelhadas e cotoveladas...



Pugilismo Ocidental

Antes de formular quaisquer deduções, vejamos primeiramente, a ligação entre o velho pugilismo ocidental sem luvas e seu similar moderno, o Boxe. Com uma história de desenvolvimento não completamente diferente, em princípio, com a da transição de Muay Boran para Muay Thai, fica fácil entender a analogia que, acredito, será de grande valia para suportar essa apresentação.

Através dos séculos XVIII e XIX, o pugilismo sem proteções ganhou grande popularidade na Inglaterra e Estados Unidos. Haviam poucas regras e, apesar delas, os pugilistas podiam aplicar uma certa gma de “truques sujos” tais como dedos nos olhos, puxar cabelos enquanto socavam a cabeça do adversário, golpear abaixo da linha de cintura, etc...

Ainda não haviam divisões por peso, padronização nos ringues, limites de tempo, protetores bucais ou regras como as conhecemos hoje. As lutas frequentemente mostravam clinches no estilo do wrestling, cbeça com cabeça, valendo-se de quedas e arremeços ou os competidores tipicamente nas pontas dos pés trocando socos indiscriminadamente.

Não diferente ao Muay Boran, os pugilistas conseguiam vantagens usando rasteiras, cotoveladas, joelhadas e estrangulamentos. Até bizarrices como mordidas e cusparadas não eram raras no pugilismo, nem bater o chutar um adversário caído.



Regras mudam o jogo

As coisas começaram a mudar em 1743 quando, após matar um homem, o pugilista inglês Broughton desenvolveu um grupo simples de regras. As regras de Broughton ainda permitiam um monte de “truques sujos” que eram considerados simplesmente como “parte do esporte”, mas enfatizou que nenhum competidor podia atacar um adversário caído nem agará-lo por nenhum lugar abaixo da cintura.

Além disso, qualquer homem apoiado nos joelhos era considerado caído. Lutadores renomados dessa época foram “Gentleman” John Jackson e Daniel Mendoza, esse último conhecido por ser um homem pequeno na era sem categorias de peso. Mendoza era conhecido por sua movimentação de pernas e movimento de corpo para evitar “trocar socos” com adversários mais fortes, algo que seria posteriormente creditado à “Gentleman” Jim Corbett como algo que revolucionaria o esporte.

Com o desenvolvimento das regras (especialmente as que o Marqês de Queensburry estabeleceu em meados de 1860) a antiga arte do pugilismo foi transformada. O uso de luvas evitavam que se pudesse segurar o oponente pelos cabelos para bater e diminuía a chance de uma lesão provocada por dedos nos olhos. Antes dos rounds com tempo fixo era comum um round acabar quando um dos lutadores caía na lona.

Dessa forma as lutas podiam durar oitenta rounds ou mais, cada um com um tempo diferente. Além das quedas e projeções, largamente utilizadas durante o antigo pugilismo, tiveram que ser proibidas técnicas como cotoveladas e joelhadas, mordidas e cuspes, dedos nos olhos e atacar o adversário caído. Removendo os elementos combativos da antiga arte e adotando equipamentos de proteção como as luvas e protetores, o novo sistema de regras alterou a prática permanentemente.

Promover árbitros imparciais e agraciando os lutadores com um percentual da bilheteria foram os últimos passos para transformar o pugilismo no esporte de entretenimento que é hoje.

Muay Boran

Ninguém sabe exatamente quando Muay Boran se desenvolveu. É largamente aceito que foi uma fusão desorganizada de várias artes chinesas e Indianas que se desenvolveu em templos budistas no sudeste asiático em um período de dis mil anos. Em meados do século XIII, era considerado uma forma de arte elevada e atividade celebrada na corte real do Sião.

A reputação dessa arte cresceu tanto que os reis começaram e enviar seus filhos para aprender seus fundamentos em reclusão nos templos, pois era a crença que a coragem, forma física e sabedoria adquirida através dessas práticas criaria bravos e sábios governantes e, eventualmente, ficou conhecido como “o esporte dos reis”.

Regras do Muay Boran

Como a arte de combate com punhos foi ganhando popularidade entre os siameses, a sua prática esportiva tmabém cresceu. Para proteger as mãos e inflingir o máximo de danos ao adversário, os competidores enrolavam os antebraços e mãos em crina de cavalo que foi substituída por corda de cânhamo, que era mergulhada em cola para endurecer. Em caso de lutas importantes e com o consentimento dos dois lutadores, vidro moído era adicionado à cola provocando batalhas sangrentas!

Não haviam ringues, categorias de peso, limites de tempo, proteções ou regras oficiais, como as conhecemos, as lutas frequentemente mostravam clinches no estilo do wrestling, cbeça com cabeça, valendo-se de quedas e arremeços ou os competidores tipicamente nas pontas dos pés trocando socos indiscriminadamente. O único equipamento de proteção eram coquilhas para proteção das genitálias feitas de casca de árvores ou conchas locais.

Só no meio do século XIX que o estilo começou a mudar gradualmente até que, no século XX, limites de tempo, luvas e uniformes oficiais, e um grupo de regras padronizadas foram adotados.

Mutos que estudam a história do Muay Thai entendem que forças similares às que afetaram a evolução do pugilismo foram responsáveis pela transição do Muay Boran para o Muay Thai.

Pergunta sem resposta

Tendo estabelecido explicações plausíveis por três das quatro fontes originais das quais o Karate se originou, (Tegumi, Tori-te e Kata) a pergunta sem resposta é se o Ti’gwa é ou não a interpretação okinawense do Muay Boran na época que antecedeu sua transição à modernidade.

Será que, como Tegumi, Tori-te e Kata, o Ti’gwa é simplesmente uma outra importação?

Poderia essa forma de luta com os punhos descobertos ter encontrado seu caminho para Okinawa durante os dois séculos de comércio marítimo com o reino do Sião? Eu não só acredito que sim, como estou confiante de que a combinação de tempo, forças culturais e resultados variados são responsáveis por sua transformação. Mas antes de fazer minha conclusão, vamos observar algumas questões.

Forças culturais

Há pouca dúvida que a tradição japonesa moderna do Karate-Do (空手道) veio através do seu predecessor okinawense, o Karate-jutsu ou Toudi-Jutsu (唐手術). A introdução e subsequente popularização da arte de Okinawa no continente japonês é bem documentada e requer pouca discussão.

O mesmo pode ser dito pelos instrutores locais de Okinawa (Motobu Choki, Funakoshi Gichin, Miyagi Chojun, Mabuni Kenwa, etc), maiores responsáveis pelo pioneirismo de sua introdução da arte ao mundo, assim como a primeira geração de mestres japoneses (Ohtsuka Hironori, Konishi Yasuhiro, Yamaguchi Gogen, Sakagami Ryusho, etc).

Nomes memoráveis entrincheirados permanentemente nos anais da história dessa arte fizeram possível que possamos estudar mais de perto e compreendamos completamente suas transições modernas. Alguns pontos, entretanto, que podem não ser tão conhecidos e podem, certamente, iluminar esse assunto, devem ser observados:

1. O nome Karate-Do (空手道 caminho das mãos vazias) é um termo moderno publicado em 1933. Antes disso, era conhecido como Ti’gwa (手小 mãos ou bunhos locais / voxe local) ou somente Ti / Di ( mãos ou punhos). O termo Toudi (唐手 também pronunciado Karate, significando mãos chinesas) ou Toudi-jutsu (唐手術 a arte do boxe chinês ou mãos chinesas) também era comum, mas usado para diferenciar o sistema plebeu de combate com punhos Ti’gwa do Quanfa chinês (拳法 kenpo em japonês), a fonte original dos Kata.

2. Em alguns círculos, acredita-se que o Karate originalmente introduzido no território japonês não era representativo de toda a arte de combate, mas somente uma parte (kata) e que, negligenciando as práticas de Tegumi, (grappling), Tori-te (imobilização) e Ti’gwa (impacto percursivo / atemi) a arte não está completa. Há, claro, uma explicação para isso.

Ao apoiar a Política Nacional Japonesa (Kokutai no hongi / 國體の本義) e a Lei de Alistamento Militar Obrigatório que afetavam o povo de Okinawa, agora uma prefeitura do Japão, o antigo Peichin e grande autoridade das artes marciais, Itosu Anko (1832-1915) encabeçou um movimento para usar Karate-jutsu para formar em Okinawa o mesmo tipo de mentalidade militar que o Kendo e o Judo fizeram no Japão. Essas duas artes tiveram papael importante na agenda militar japonesa antes da guerra.

Tornando-se atividades compulsórias no currículo de educação física japonesa e um veículo para produzir corpos hábeis e espírito de luta entre os jovens. A propaganda militar glamorizava a prática do Budo como “a forma de homens comuns desenvolverem bravura incomum”. até o fim da segunda guerra mundial, essas artes serviram para preparar candidatos à máquina de guerra japonesa.

Modificando a prática dos kata, Itosu Anko criou uma versão simplificada da arte de Okinawa para ser usada exclusivamente em exercícios escolares. Dessa forma, a prática simplificada dos kata pode facilmente ser usada como veículo para afunilar tanto a forma física quanto a conformidade social. Assim ele conseguiu não somente apoiar a política nacional como trazer grande reconhecimento à pequena ilha e sua cultura.

Pode-se entender que muito se perdeu quando Itosu trouxe da obscuridade as práticas e introduziu sua versão simplificada ao público através dos kara. Foi durante essa época que as páticas de Tegumi, Tori-te, e Ti’gwa  começaram a cair dormentes e a arte como um todo começou a se transformar para sempre.

Menos é mais

Se menos é mais, então há pouca questão sobre a iniciativa de Itosu em revolucionar a prática do Karate. Dito isso, muitos se perguntam hoje em dia, “a que custo para a arte original?” Apesar das perdas, ela pode nos ajudar a entender que durante os séculos XIX e XX houve grande e crescente indiferença voltada às artes de combate sem armas, diretamente relacionada ao colonialismo ocidental, e esse sentimento não era limitado à Okinawa.

A melhoria das armas de fogo e sua disseminação durante a guerra do ópio, da rebelião dos boxers e a destruição do templo Shaolin por Chiang Kai-Shek, não só provocaram a morte de incontáveis guerreiros chineses treinados nas artes marciais (lutadores, seguranças, soldados, etc...) mas também acabaram com o mito de que dominar as artes marciais fazem de alguém invencível!

Apesar dessa ressalva, uma das qualidades redentoras que as artes marciais têm em comum é o condicionamento físico. Reconhecida como a pedra angular da saúde e bem-estar, a prática das artes marciais era ferramenta vital para o fortalecimento do caráter e da identidade nacional. Além disso, sua capacidade de promover boa forma e um espírito aguerrido, qualidades essenciais em qualquer força militar, fizeram do wrestling e da esgrima práticas adjuntas no sistema escolar ocidental e, também o boxe, que veio a ser considerado um recurso benéfico para os mesmos objetivos.

Uma das escolas de pensamento acredita que o Japão só estava seguindo os passos das iniciativas ocidentais e usando, ao invés de esgrima e grappling o Judo e o Kendo para atingir os mesmos objetivos. Vendo o valor que o Boxe representava, Itosu tomou a iniciativa de recomendar que o Karate fosse usado de forma similar como reforço ao currículo das escolas públicas de Okinawa.

3. Alguns leitores podem se surpreender ao saber que o Karate que foi introduzido no Japão em 1921 diferia muito pouco da prática altamente repetitiva, dominada pelos kata que Itosu popularizou no sistema educativo público de Okinawa. Além do mais, não havia sparring ou formas de aplicação através das quais os alunos pudesses testar a veracidade das suas técnicas nem medir o seu espírito de luta!

A ausência de tal mecanismo catalítico quando os leitores intenderem que o sparring era uma prárica aceita no Kendo tradicional e no Judo e, naquela época, era desejável. Apesar de ambas as artes dependerem de repetições e kata ritualizados, os praticantes entendiam claramente que era aravés do desafio do sparring livre (jigeiko / 地稽古 no Kendo e randori / 乱取り no Judo) que suas habilidades eram testadas, seu espírito testado e o progresso assegurado.

Na verdade, a razão pela qual os primeiros praticantes japoneses começaram a experimentar com rotinas de luta na Universidade se Tókio e nas academias foi o tédio pelas incontáveis repetições de kata e a ausência de rotinas de combate aplicado. Quando Funakoshi chegou à Tókio em 1922, ele só ensinava kata dizendo: “Kata é Karate e Karate é kata.”

4. Outro grande mal-entendido é a forma como kata era ensinado durante essa época tanto nas escolas públicas quanto no Japão e suas universidades. A idéia de os alunos primeiro aprenderem os fundamentos na prática de kihon (kihon waza / 基本技) antes de aprenderem os kata é o padrão atual, mas esse nãoera o caso naquele tempo! A forma de quebrar os kata em partes menores para desenvolver práticas de apoio ao seu aprendizado foi um outro subproduto dessa primeira geração de japoneses buscando melhorar seus meios de treinamento. Antes disso, kata era aprendido através de mera repetição constante.

Durante a era embriônica no continente japonês, a única excessão à regra foi o Ti’gwa de Motobu Choki. Sua abordagem no ensino da arte Okinawense foi contrária à repetição dos kata usada no sistema de ensino e muito mais indicativa dos “velhos tempos”. Ele foi um opositor declarado do que chamava de karate bonito de se ver que não tinha nenhuma sibstância real e que comparava ao Shamisen (三味線): uma guitarra okinawense de três cordas que é bonita por fora, mas vazia por dentro!

Ele criticava constantemente todo e qualquer método incongruente de treinamento usado por seu compatriota Funakoshi e ria abertamente da propaganda voltada a fazer aprendizes acreditarem que o entendimento do significado dos kata iria, ou poderia ser evidente pela simples repetição de sua prática! Em meio à estrita cultura conformista japonesa, era esperado de Motobu Choki que sacrificasse suas diferenças pessoais em prol da tranquilidade comunal.



Um provérbio japonês fundamental diz: Deru kui wah utareru (出る杭は打たれる), literalmente, “Prego que põe a cabeça para fora, leva martelada”. Nos padrões japoneses, se você se destaca da massa, será criticado. Motobu Choki se destacava! Infelizmente, ele foi ostracizado por sua franqueza e, durante essa época, seu Ti’gwa tradicional foi largamente ignorado pelo público geral.

5. O Karate tornou-se popular no Japão durante seu período radical de escalação militar. Sendo assim, a prática sofreu ainda outra transformação devida, em grande parte, pela força implacável  da cultura japonesa (BUDO). Em toda parte dessa apresentação eu citei as características da mentalidade japonesas como sendi “diferentes” das ocidentais.

Para àqueles pouco familiarizados com a cultura japonesa, meus comentários podem ser entendidos como indiferentes, ou até, promovendo um sentimento anti-japonês. Não é esse o caso. Enquanto uma grande discertação poderia melhor descrever “a forma diferente de fazer coisas no Japão”, estou limitando minha explicação ao fenômeno cultural único conhecido como Shikata (仕方), literalmente, a forma e a ordem de fazer as coisas propriamente no Japão. “Kata” () é o condicionamento cultural que faz o japonês pensar e agir como o faz.

Para leitores que precisam de mais informações sobre Shikata, recomendo a excelente publicação de Boye De Mente, “Kata: The Key to Understanding and Dealing with the Japanese.” Para mais, veja aqui:  http://tinyurl.com/3gwht6j

À medida que a nova arte estrangeira de luta começou a ganhar força no Japão, a forma vigente de pensar representada pelo Budo (da qual o Karate estava anseando fazer parte) compeliu os instrutores okinawenses a observar a etiqueta cultural e aceitar protocolos estabelecidos sem questionar. Da época em que o Karate foi introduzido, em 1922 até ser oficialmente reconhecido como parte do Budo japonês, uma década depois, a arte de combate sofreu uma transformação significativa.

As principais mudanças ao “Kara-te-jutsu (唐手術) incluíram eliminar tanto os ideogramas de prefixo quanto de sufixo, que revelavam sua origem estrangeira e seus objetivos “antiquados”. Os velhos ideogramas foram substituídos por descrições mais aceitáveis à prática da mentalidade cultural: / Kara significando “vazio” e / Michi ou Do significando “caminho” ou “meio”.

Adicionalmente, vieram a adoção de uniforme padrão (/ gi), o uso da faixa ( / obi) e o sistema de graduação (段-級 / dan-kyu) emprestados do Judo / 柔道 com as bênçãos de seu fundador, Kano Jigoro (嘉納治五郎)

A transição se fez completa quando o Karate estabeleceu um formato de competição. Descrito como Ippon Shobu (一本勝負 / combate de um ponto) e baseado largamente no conceito de “matar com um único golpe” (拳必殺 / ikken hisatsu) prevalente no Kendo (剣道) e no Judo (柔道), os entusiastas do Karate puderam, finalmente, testar suas habilidades físicas e técnicas e medir seu espírito de luta.

6. O Karate-Do (空手道), conformado às exigências da cultura japonesa (Budo) e munido das práticas recém criadas de kihon-waza em suporte, tanto ao kata quanto ao kumite, foi reconhecido oficialmente pela Dai Nippon Butokukai (大日本武德會) comouma arte de combate moderna (現代武道 / Gendai Budo) e parte do Budo japonês (日本武道) em Dezembro de 1933.

Pode ser interessante aos leitores notar que, a dispeito de sua herança diversa, o Karate foi criado como uma tradição SEM ESTILOS, da mesma forma qu o Kendo e Judo foram transformados de práticas pré-existentes. Com uma aparência e objetivo completamente diferentes do seu predecessor okinawense, a nova tradição tornou-se unicamente japonesa.

Enfatizando as práticas solo de kihon recentemente desenvolvidas, a repetição incessante de kata estilizados e kumite (sparring) com regras, formou-se o padrão no qual o “Karate 3K” iria encontrar seu rumo aos quatro cantos do mundo.

Mecanismo Catalizador

Entendendo como as regras e resultados variados ajudaram a mudar, tanto o Boxe ocidental quanto o Muai Boran siamês, fica mais fácil enxergar como essas influências também impactaram a evolução do Karate-jutsu. Assim como as regras normalmente ditam como atletas atingem melhores resultados competitivos, faz sentido que os métodos de treinamento desenvolvidos durante os anos 1920 e 1930 rflitam esses objetivos contemporâneos.

Apesar de uma porção considerável das mudanças que transformaram a antiga arte de Okinawa ser de ordem cosmética e recreacional, ao olhar de perto o seu período embrionário nós descobrimos dois mecanismos catalizadores poderosos: a força onipotente da personalidade única japonesa em conjunto com sua agenda pré-militar irrevogável. Esses são os fatores principais que explicam essa metamorfose.

Diz-se que o Budo (do qual o Karate é parte integrante) é um microcosmo cultural. Dessa forma, acredito ser possível aprender muito sobre o povo e o local de onde vem a arte ao olhar além do nosso treinamento físico e dentro da sua história singular e sua cultura fascinante.

Um ditado antigo, tão provocativo quanto informativo, On Ko Chi Shin (温故知新) sugere: “Aprenda o velho para entender o novo”.

Outro velho provérbio, tão educativo quanto, diz:  Bun Bu Ryo Do (文武両道) descrito como “os caminhos gêmeos da pena e da espada”, cuja compreenção mais profunda revela o equilíbrio entre a cultura e o domínio das artes de combate. Estou confiante que, ao refletir essa sabedoria atemporal, nossa vida pode ser tanto um produto da arte quanto a arte é produto da nossa vida.

Mais questionamentos...

Ainda há outros dois pontos que intenciono focar à respeito de estilo (流派 / Ryuha) e influência. Como a arte original focava-se na violência não limitada por regras, imagino qual o papel que o lucro comercial, o interesse pessoal e o protecionismo cultural tiveram na propaganda que promoveu a aceitação geral de práticas tão limitadas por estilos?

Também, por causa da aparente ênfase colocada, nos dias de hoje, em ir para Okinawa em busca de versões “originais” ou “autênticas” dessa arte, esperava medir a influência que o Karate moderno japonês teve, lá atrás, depois do seu crescimento e da direção que essa tradição teve na Okinawa do pós-guerra. Talvez, entretanto, seja melhor deixar para uma outra hora.

“Onde está a floresta?”

Não posso ver a floresta por causa das árvores” é uma expressão clássica que melhor descreve aquele que é tão focado em detalhes pequeninos de algo, que esquece, ou até não consegue ver, que há algo mais... inclusive o seu propósito original. Por exemplo, quando focamos tão intensamente em coisas pequenas sobre nosso estilo tais quais “a forma como fazemos isso...” ou “nosso dojo...”, “meu sensei”, “não está nas nossas regras”, “não é um soco em 42 graus, mas em 45 graus!”, etc..., os conceitos e resultados da arte, em si, são normalmente negligenciados, se quer que serão entendidos, em primeiro lugar!

Perder o rumo em assuntos maiores, que definem o propósito original e a prática funcional, significa que a beleza e profundidade dessa herança maravilhosa talvez nunca seja corretamente compreendida.

Conclusão

Apesar de a teoria apresentada nesse trabalho não ser corroborada pro gerações passadas ou presentes de autoridades okinawenses do Karate, isso não a torna menos válida. A falta de documentação oficial, testemunhos históricos e evidências conclusivas explicando as origens ecléticas e a subsequente evolução das artes combativas de Okinawa foi suficiente para provocar minha curiosidade. Eu questionei a história aceita sobre as origens do Karate, apresentei evidências que identificam seus precursores individuais, domésticos e estrangeiros e cheguei a uma explicação plausível das forças que deram forma à essas transições.

Estou satisfeito com os resultados desse estudo e espero, sinceramente, que minha apresentação tenha sucedido em ilustrar como e porque o Muai Boran (boxe siamês arcaico) representa a fonte original da qual o Ti’gwa se originou. Mais importante, espero que esse trabalho modesto abra as portas para oportunidades. Talvez até inspire alguns leitores a pensar fora da caixa e sentirem-se confortáveis em saber que o pensamento crítico continua uma ferramenta aceitável e importante em ajudar a eliminar a terrível ambiguidade que paira sobre a história dessa arte.

Raízes profundas fortalecem as fundações dessa arte e, ainda assim, as asas promovem os meios de continuar adiante na jornada rumo ao descobrimento. Praticar Karate nos liga, discretamente, ao seu passado. Através da disciplina e sacrifício, descobrimos nosso “eu interior”. Ao treinar em grupo, forjamos laços importantes de amizade e, ao viver a arte, honramos sua herança que, em troca, nos mantém o espírito vivo.

Tradição não é seguir cegamente os passos de nossos velhos mestres, ou preservar suas cinzas numa caixa mas, ao invés disso, manter a chama de seu espírito vivo, ao buscar continuamente, entender e aprimorar àquilo que buscavam.

Tenho certeza que esse pensamento é muito mais alinhado com a abordagem original, intenções e ensinamentos dos pioneiros, do que a mentalidade conformista em que essa arte caiu dormente.

Associar a arte do Karate a um caminho e, parafraseando a sabedoria do grande mestre Zen, Basho, “depende de quanto alguém tem que viajar até perceber que o destino não é o objetivo, mas sim, a jornada”.

http://www.koryu-uchinadi.com

Artigo original postado em 11 de Janeiro de 2011 por Patrick McCarthy

The original source of Okinawa-te [Ti'gwa/[手小]?

5 comentários:

  1. Gnomo San,

    Você é Realmente o maior do Mundo... Muito legal esta pesquisa.

    Será que poderia me dar uma ajudinha com o site da federação estamos enfrentando alguns problemas com a hospedagem... por favor da uma olhada e faço um contato com Jayme e comigo.

    Oss!

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    Respostas
    1. Entrei no site da Federação e estava funcionando. Só vi a mensagem agora. Vou falar com o Jayme e te ligo assim que tiver mais informações.

      OSS!

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  2. Esse Patrick McCarthy é porreta!

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  3. Fiquei estupefato!! Muito interessante esses artigo! Me deu uma nova visão sobre o Karate-do! Muito bom mesmo!!

    Obrigado pela tradução e por colocar esse valioso artigo a disposição!

    OSU!!!

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  4. Olá, tudo bem? O melhor texto explicativo sobre a real origem do karate, bastante imparcial e sim, o mais coerente que já tive o prazer de ler. Um professor chamado Dennis Andreta, de Shito-ryu também possui texto com pensamento similar ao seu.

    Penso assim também, que o estudo da arte deve ultrapassar a escola de onde saímos, que a tradição é importante mas que jamais devemos ser escravos dela.

    Seu blog é muito bom.

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Dream Team

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Equipe do Rio de Janeiro. Da esquerda para a direita: Inoki, Fernando Athayde, Ronaldo Carlos, Hugo Arrigone, Paulão, Zeca Kriptanilha, Luciano e Flavio Costa. Falta nessa foto apenas o grande Victor Hugo Blanco Bittencourt..