quarta-feira, fevereiro 22, 2012

On Ko Chi Shin - velhas perguntas para novas respostas

por Marcos Piolla

温故 (On-ko) é valorizar o velho, a tradição; 知新 (Chi-shin) é aprender o novo.
Significa literalmente: Faça velhas perguntas e obtenha novas respostas. Ou seja, para descobrir novas coisas, das quais não experimentamos, devemos buscar respostas através da história. Esse provérbio, de grande impacto nos pensadores japoneses, é de autoria do filósofo Confúcio (Kung Fu Tsé).

Infelizmente, vejo muitos falando de tradição, mas sempre como algo a ser mantido, guardado à sete chaves, como uma relíquia sagrada que não se pode mexer, tampouco questionar e, pensar em alterar certamente significaria, ao transgressor, a perda de sua alma imortal.



Pior ainda, quando falam de inovação, significa novas maneiras de perpetuar o status quo, nos transformando em especialistas em não questionar dogmas e inovar rumo ao retrógrado. Um ultraje!

Li, em algum lugar, que respeitar as tradições (nas artes marciais) não é reverenciar os ossos de seus Mestres, lavando-os, como faziam os antigos reis de Okinawa, mas sim, buscar ávidamente exatamente aquilo que buscavam. E eles buscavam eficiência, eram inovadores. Desbravadores!

Eles quebraram as tradições e, fazendo isso, as mantiveram. Já nós, enquanto bradamos orgulhosos aos quatro ventos a nossa fervorosa devoção às tradições, desrespeitamo-las, traidores que somos.

Quando nossos antepassados marciais formularam os tantos sistemas que praticamos hoje em dia, o fizeram por necessidade. Haviam situações de violência física a resolver, problemas imediatos com os quais precisavam lidar.



Ninguém, em sã consciência perderia tempo criando um kata para melhor desenvolver a forma X ou Y ou Z para que isso, depois de praticado durante anos, os levasse a uma eficiência teórica de como lidar com situações reais de violência física. Precisavam estar prontos imediatamente para, quando o perigo se apresentasse, e não era raro, voltassem para casa vivos e inteiros.

Aprendiam, desde jovens, assim como eu e muitos de nós aprendemos, com seus Mestres a lidar com variadas formas de agressão que, DEPOIS, eram encapsuladas em forma de um kata. Uma fita de DNA que, ao se desenrolar, desvendava um sistema completo de auto-defesa para, pelo menos, um tipo de agressão. Um objetivo.

Como já mencionei... “Um sistema é um grupo interconectado de elementos, organizados de forma coerente de forma que atinjam um objetivo.”

Quando um sujeito criava / desenvolvia um kata, já tinha passado por aquelas situações inúmeras vezes e, tendo saído vitorioso (vivo) e com a prática, aperfeiçoava seus métodos de treinamento e, à medida em que acolhiam alunos ou tinham que treinar um time de profissionais de combate desarmado, compilava esses princípios e métodos num kata.

Ainda assim há inúmeros karate-ka que atestam categoricamente que nem todos os movimentos dos kata têm que corresponder a uma aplicação prática em combate!! O ego do indivíduo fala mais alto e, ao invés de assumir que não sabe a aplicação original, ou pior, que seu Sensei ou o Sensei dele não sabia, prefere perpetuar essa mentira ridícula para assegurar o retrógrado. Nutrir a ineficiência!

Claro que todos os movimentos dos kata têm uma aplicação prática! É uma ofensa à capacidade de raciocínio de qualquer chimpanzé dizer o contrário. Vou ainda mais longe em atestar que não só eles tinham aplicações práticas e brutais como eram, pelo menos à partir de Matsumura, planos táticos de ação.

O próprio Sensei Funakoshi confessou:
“O Karate tem por volta de vinte kata, que são como cartilhas para estudantes ou manobras táticas para soldados.”    Funakoshi Gichin

Manobras táticas!!! A prática de kata “solo” é uma forma de ensaiar essas manobras mas, de nada vale, se não executada em grupo. Não só é preciso saber as aplicações ESPECÍFICAS, como a função de cada um nesse esquema tático.

Alguém já viu um jogo de Futebol Americano? Apesar de cada jogador treinar individualmente as habilidades que precisa para desempenhar sua função, eles treinam em conjunto, repetindo ad nauseam até que não precisem mais pensar no que fazer.

Isso é Karate! É estar desesperado. Estar pronto para o desespero... Karate é estar pronto! Não é à toa que o primeiro estágio de qualquer kata é o Yoi! Yoi quer dizer à postos, é ESTAR PRONTO!

Ainda assim, nem o próprio Funakoshi passou adiante as aplicações e, se passou, quem recebeu (Nakayama?) nao o fez. E nem me venham falar daquelas apresentações embaraçosas da série “Best Karate” onde TODOS os ataques são golpes de Karate permitidos em competições desportivas. Karate não é um esporte! Até pode ser, mas não é...

Quando se mostra aquilo pra qualquer pessoa que já teve que se defender e nunca praticou Karate, imediatamente riem da proposta absolutamente inverossímil que vislumbram. Um engodo!

Engodo de proporções tamanhas que muitos atletas graduados, campeões até, não estão aptos a se defender, caso se encontrem em situações REAIS de violência física. NÃO ESTÃO PRONTOS! Não são, portanto, Karate-ka. Que pena! Que vergonha!

O que os impede de estar prontos? Nada! Eles têm tudo que precisam e, provavelmente, nem sabem. Não querem saber... O ego não permite que assumam que não sabem, que não treinam de acordo com os objetivos iniciais dos engendradores do Karate. O mesmo ego que se nega a enxergar o que está bem diante dos olhos, escondido sob a luz ofuscante do óbvio e é a resposta para as perguntas que nem sequer querem perguntar.

Sensei Machida costuma dizer que a coisa mais importante no Karate é a “bista” (vista, ou nesse caso, a visão). A falta de visão é um problema crescente que aleja o Karate e faz com que deixe de ser Karate. Se não estamos prontos, não é Karate!

Só estaremos prontos quando, como arqueólogos, desencavarmos os ossos fossilizados de sistemas dinossáuricos que só ganharão vida se os desmembrarmos (bunkai = desmembrar) para que, decifrando seus propósitos originais, possamos colocá-los em funcionamento mais uma vez.

Uma coisa útil dessa mania de manter o status quo é que, cada vez que um estilo ou escola foi criado, seus seguidores encapsularam os fundamentos, paralizando-os no tempo e isso nos permite voltar ao passado e retroceder pelas exatas pegadas que os trouxeram até aqui. Fazendo isso sabemos precisamente o que se perdeu, quando se perdeu e o que foi adicionado, quando e (quase sempre) por quê.

Depois disso, resta comparar o que sobrar com outros sistemas similares de combate e, assim, descobrir seus objetivos primordiais através de uma visão clara e desprendida.

Um amigo, pesquisador e historiador, autor do brilhante “Shotokan Secrets”, o Dr. Bruce D. Clayton compôs um poema que resume muito bem:

Ouvir o Silêncio

O Karate é a mais difícil Arte marcial.

O kata é a parte mais difícil do Karate.

O bunkai é a parte mais difícil do kata.

A visão é a parte mais difícil do bunkai.

O silêncio é a parte mais difícil da visão.

O ego é a parte mais difícil do silêncio.

O silêncio revela as respostas,

As respostas contém a visão,

A visão ensina o bunkai,

O bunkai inspira o kata,

O kata faz do Karate, vivo,

E o Karate nos ensina a viver.

Só o ego barra o Caminho.

Ponha o ego de lado e escute o silêncio...

                                           Bruce D. Clayton
Não me restando nada mais a dizer sobre o assunto, quem nos deixou, há muito tempo, a resposta, foi o próprio Funakoshi Sensei...




 


Vasculhar o velho é entender o novo.
O velho... o novo - uma mera questão de tempo.
O Caminho: Quem o trilhará reto e bem?
                                                                Funakoshi Gichin

OSS!

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Dream Team

Dream Team
Equipe do Rio de Janeiro. Da esquerda para a direita: Inoki, Fernando Athayde, Ronaldo Carlos, Hugo Arrigone, Paulão, Zeca Kriptanilha, Luciano e Flavio Costa. Falta nessa foto apenas o grande Victor Hugo Blanco Bittencourt..